Dizem que sou louco por pensar assim, se eu sou muito louco por eu ser feliz, mas louco é quem me diz…*
Waidd Francis de Oliveira
Psicanalista, Professor da FDCL e membro da ACLCL
Na obra “Contos de amor, de loucura e de morte”, o escritor Horacio
Quiroga nos revela narrativas em que o inconsciente dos personagens se manifesta por meio
de paixões arrebatadoras, impulsos incontroláveis e comportamentos marcados pela repetição
de traumas. O amor, muitas vezes idealizado ou obsessivo, surge como projeção de desejos
reprimidos, enquanto a loucura pode ser interpretada como o rompimento das defesas
psíquicas diante de perdas, frustrações ou ameaças externas. A morte, por sua vez, é presença
simbólica e concreta, funcionando como limite absoluto que dá sentido e tensão à vida,
personificando-se muitas vezes como o real.
A literatura possui também este papel, dialogar com questões que
fogem ao nosso controle, por vezes ultrapassam o poder da imaginação. O livro foi publicado
originalmente em 1917. Quiroga era uruguaio e teve uma vida inconstante, nasceu em 1878 e
faleceu em 1937. Os contos são arrebatadores e nos fazem lembrá-los por um longo tempo
após a leitura, apresentando-se como um momento da vida percebido com grande emoção.
Em diversos contos, os personagens se veem dominados por pulsões
de vida (Eros) e de morte (Thanatos), que se entrelaçam em relações ambíguas e intensas.
Quiroga, ao unir o trágico e o belo, expõe a fragilidade do eu diante das forças internas e
externas que o atravessam, mostrando que amor, loucura e morte não são experiências
separadas, mas partes de um mesmo drama humano.
Segundo Freud, o sofrimento pode ser apresentado diante de três
fontes: do próprio corpo, já que o estado de saúde física e psíquica é uma constante
preocupação e, por vezes, somos surpreendidos com alguma enfermidade, mesmo que
passageira; do mundo exterior, que conhecemos como natureza e sua força inabalável, que
mesmo na tentativa de controlá-la pode ainda se apresentar por meio de alguma catástrofe
climática e, finalmente, da nossa relação com as outras pessoas, que diuturnamente nos
causam felicidades, prazeres, mas também angústias e sofrimentos.
A psicanalista Sandra Edler, em seu livro “Tempos Compulsivos: o
mal-estar e o sofrimento psíquico em nossos dias”, nos provova a uma reflexão sobre o novo
tempo, o nosso tempo. A busca desenfreada pelo prazer, mas qual prazer, o de excessos,
incentivado por essa cultura que paira sobre nossas cabeças e nos acelera, nos automatiza. O
tempo que deve ser útil constantemente. Não é mais aceitável a dor, em momento algum.
Não há respeito com relação ao tempo dos sentimentos ou mesmo dos sentidos. É nossa
obrigação estarmos felizes, belos e bem sucedidos o tempo todo, porque há uma necessidade
de expor isso para o mundo. Mas as dores estão aí, o que nos permite no máximo encobri-la, o
verdadeiro encobrimento do real.
O uso de substâncias externas ao nosso organismo na busca por um
prazer constante que nos livre dos dissabores cotidianos podem nos trazer mais problemas
que soluções. Precisamos dentro do nosso processo de amadurecimento ter contato com a
percepção de cada momento, seja ela boa ou ruim. As dores assim como as alegrias nos
constroem de forma a conseguirmos entender melhor esse constante movimento que a vida e
as próprias relações a que estamos sujeitos podem e devem nos proporcionar.
A utilização de substâncias que, de um modo geral, nos permite uma
vida acima dessas inconstâncias tão normais e salutares da, e para a vida, podem criar uma
bruma e distorcer a realidade em que vivemos, criando uma versão paralela do momento, de
tal forma a dificultar o retorno a esse verdadeiro estado do qual nos encontramos e
necessitamos voltar e vivenciar.
A busca e principalmente o encontro com a felicidade é subjetivo,
mesmo vivendo dentro de uma cultura universalista que insiste em nos mostrar um único
caminho e um objetivo apenas. Muitas vezes essa procura nos induz a pensar e desejar sermos
vistos e reconhecidos. Necessário se faz uma busca interior para encontrarmos o que
realmente nos faz feliz, tendo visões claras sobre o amor, a loucura e a morte.
*Balada do louco – Canção de Os Mutantes.
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