Discursos,  Wilson Baêta de Assis

Discurso de saudação pelos 229 anos de Emancipação política do município, bem como 26 anos de fundação da ACLCL

Acadêmico Wilson Baêta de Assis

Acadêmico Wilson Baêta de Assis

Exmo. Sr. Acadêmico Moises Mota da Silva Ilustre presidente da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafayette, em nome de quem com a devida aquiescência saúdo os componentes da mesa dos trabalhos cujos nomes já foram mencionados por este protocolo.

Caríssimos homenageados com a outorga da ordem “Construtores do Progresso,” Ilustres autoridades presentes, bondosos amigos, Senhoras e Senhores.

Homenagear e reverenciar, é certamente com esse pensamento que a Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafayette, na instrumentalidade desta sessão solene, vêm respeitosamente render ao nosso município justa homenagem pelo ducentésimo vigésimo nono aniversário de sua emancipação política. Tempo em que também veneramos a caminhada vitoriosa de nossa Academia, festejando o vigésimo sexto ano de sua fundação. Preito este, antes de tudo, nossa manifestação de gratidão e justiça.

Irmanados no mesmo pensamento o corpo acadêmico de nossa confraria, igualmente alicerçado no amor e na fraternidade, virtudes que apoderando-se todos neste momento, transforma-se em incenso de aroma suave. Visto que na liturgia da hora, não importa quem seja o orador, o que efetivamente conta, é o imperativo do sentimento patriótico, que inebria não só os membros desta confraria, mas, a todos os lafaietenses, guardiões que somos dos feitos de uma epopéia gigantesca.

Daí senhoras e senhores, discorrer a sucessão de eventos extraordinários, nas suas mais diversas ações gloriosas, que marcaram a caminhada histórica do município; o tempo reservado à oratória de um simples discurso, somente elencá-los, o tempo determinado seria impotente para sua conclusão. Assim, limitar-me-ei à locução de apenas alguns parágrafos de maneira a sintetizar a épica caminhada da colonização à emancipação.

Ilustre assembleia:

Na genealogia da história do município co-herdeiros que somos, corre em nossas veias o sangue dos desbravadores da grande bandeira paulista de 1694. Homens rudes e fortes que sob a égide da fé cristã, agregando o ímpeto de três raças distintas, o europeu na figura do bandeirante, o índio filho natural da terra, e o braço forte do negro africano, iniciaram a colonização do arraial.

Muito se tem escrito e discursado a respeito dessa grande empreitada até os dias atuais, nesta oração qualquer acréscimo, seria vã repetição. Daí, alguns parágrafos, com a devida vênia, rogo a colega acadêmica Avelina Maria Noronha de Almeida, a permissão de citar trecho de sua obra prefaciando um trabalho histórico do município quando este orador, à frente da cultura do município do ano 2002 solicitou o seu concurso.

“(…) nossa terra fértil, dadivosa, e guardiã de imensos tesouros, nasceu num berço de verdura colorido de flores, rodeado de montanhas, batida pelo vento e pelo sol.
Iniciando os primeiros passos, expressando suas primeiras palavras, expandindo-se nos contatos com a diversidade das pessoas com as quais estabelecia seus laços de abrigo, comercio e afeto; crescia cada vez mais febril e inquieta, seduzida pelas riquezas. Enfeitou-se de templos barrocos, aprendendo na arte a amar a beleza. Aprendeu também; no sofrimento, na violência de muitos, na prepotência de outros.
No sofrimento aprendeu a reagir. Ouviu as palavras inflamadas de Joaquim José da Silva Xavier. Passou a sentir ânsias de liberdade e pediu para se tornar independente, passando a chamar-se Real Vila de Queluz.
Foi heroica quando saiu vitoriosa na batalha de 1842, ao comando de Gaivão. Adornou-se de flores, enriqueceu-se de livros. Era já a cidade de Queluz de Minas, a cada dia mais culta e bela.
Até que um dia entrando na maturidade passou a chamar-se Conselheiro Lafaiete. Foi a guerra ajudando a conquistar a paz enviando seus filhos para os campos de batalha da Europa.
Hoje conscientemente do dever cumprido olha para traz e sente-se feliz pelo que realizou. Agradecida pelo trabalho de muitos corajosos, lutadores, heroicos e abnegados habitantes do Campo Alegre dos Carijós, de Queluz de Minas, e de Conselheiro Lafaiete. índios, mineradores, bandeirantes, missionários, escravos, lavradores, administradores, cientistas, literatos e artistas, na aventura da descoberta, na rota da conquista, na seara da catequização, na árdua missão de promover o nosso desenvolvimento através dos tempos, a razão do nosso presente.”

Avelina Maria Noronha de Almeida


Senhoras e Senhores: esta sinopse é suficiente para ratificar a grandeza dessa terra que tanto amamos e nesta oportunidade jubilosos comemorarmos trezentos e vinte cinco anos de colonização, e duzentos e vinte e nove anos de emancipação política.

Tempo em que também manifestamos o mesmo entusiasmo pelos vinte e seis anos de fundação deste cenáculo que ora nos acolhe. Tal aprazimento mais se agiganta trazendo à memória o faustoso dia 18 de setembro de 1993.

Se naquele evento anjos em miríades não cantaram, se hosanas não se ouviram, se fogos de artifícios não pipocaram anunciando o seu natal, certamente no tempo presente, outras vozes, ao som dos mais diversos estilos literários, como astros cintilantes glorificam-na neste instante. De maneira mais gratificante, nossa particular reverencia à verve pura, decantada na pena de nossos pares que nos precedem na eternidade. A eles o penhor de eterna gratidão.

Caríssimos confrades e confreiras. É a vocês, meus companheiros quem mais precisamente me dirijo nesta hora. Despojado de quaisquer outros sentimentos, na simplicidade destas palavras, associo-me a alegria que a todos. Lembrando que não estaríamos hoje colhendo os louros da vitória, não fosse o trabalho profícuo e o amor desmedido de devotados companheiros que nos precedem na casa do Pai. O devotamento daqueles à nobreza da causa, é a confirmação do exemplo, força, e vigor, levando de vencida os mais diversos obstáculos. A eles num primeiro plano somos devedores de eterna gratidão.

Daí, acreditar, rogando uma vez mais todas as vênias no sentido da compreensão diversas, que as letras ancoradas no talento dos que delas fizerem o uso racional, certamente será fanal de luz para os menos esclarecidos, posto, que a palavra sem a enfermidade de interesses escusos, jamais será instrumento de depravação e de atropelo nos mais diversos seguimentos da sociedade. Ainda que tal afirmação seja para muitos utopia, em contrapartida, é realidade possível para tantos outros.

O que particularmente vislumbro em minha modesta visão, ratificando o que acredito, é que compromissados na propagação desse ideal, juntos formaremos um exército de luz. Acendendo num curto espaço de tempo, luzeiros aclarando as mentes, esclarecendo a muitos, o que se oculta atrás do verdadeiro entendimento e comprometimento com os direitos básicos da dignidade humana. Qual seja a boa convivência que se traduz na prática da honestidade e da justiça, valores tão carentes nos dias atuais.

A memória daquele dia jamais cairá no esquecimento. Nos últimos tempos, nossa casa de empréstimo, o Solar Gabriela Mendonça, embargado para reformas estruturais, interrompe ali nossas reuniões. Entretanto, não ficamos totalmente desprovidos de um teto para as nossas reuniões. Graças à generosidade de abnegados confrades e confreiras que oferecendo-nos o aprazimento de seus lares, a razão da continuidade de nossas atividades. Assim desde o princípio, nossa confraria viveu de empréstimos e favores o que em nada denigre a imagem vitoriosa de uma brilhante jornada. Vivemos todo esse tempo de sonhos e de esperança, no tempo que se chama hoje, continuamos enlevados, acreditando na conquista de melhores dias.

Portanto neste parágrafo nosso aplauso a todos os colegas acadêmicos, que dentro de suas limitações não mediram esforços marcando suas presenças no apoio moral, bem assim, noutras múltiplas atividades de cunho logístico. Externando outrossim neste momento, nosso mais sincero agradecimento a generosidade de alguns poucos mecenas do tempo presente.

Senhoras e senhores: com a sinceridade que sempre norteou os trabalhos desta casa, e no vigilante resguardo ás devidos proporções; entendemos que os percalços de nossa jornada, todos levados de vencida, haver nesse cenário singela semelhança com a histórica caminhada da Academia Brasileira de Letras.

A leve comparação a que me proponho fazer, mesmo à sombra dessa menção, enfatizo uma vez mais, não traz, em absoluto, no bojo das palavras, a pretensão de espelhar o todo de nossa caminhada, á vitoriosa jornada da casa de Machado de Assis.

Mas, simplesmente e imperiosamente, porque, o momento é favorável a proclamação em alto brado chamando a conscientização, pessoas e entidades de forma mais efetiva, a manifestarem apoio as artes. Lembrando- que o descaso ás entidades culturais, é algemar alguém naturalmente dotado, trancafiando sua pretensão e capacidade criadora especialmente os desfavorecidos da sorte.

Graças aos amantes das artes, das letras em especial, é que na instrumentalidade da Academia Francesa de Letras, mesmo à distância, se fizeram mecenas, pedra angular no apoio aos inúmeros percalços da caminhada da Academia Brasileira de Letras.

Aquela não sucumbindo ás múltiplas adversidades, graças ao apoio recebido; a súmula de suas atividades no mais breve relato, é ter tido a honra de ter dado assento em suas cadeiras aos maiores vultos da literatura brasileira.

Entretanto, no tempo presente coberta de honras e de glórias teve também na aurora da existência, barreiras quase instransponíveis, o que se confirma nos relatos de alguns acadêmicos onde contemplamos confissões, impregnadas de um sentimento de abandono.

Rodrigo Otavio, um dos oradores da histórica sessão do ano de 1923 quando a Academia Brasileira de Letras mudou-se para a sede própria, compara a pobreza financeira da instituição, parafraseando a pobreza franciscana da Ordem de São Francisco, dizendo:

“os frades embora descalços e mendicantes, têm um teto para abrigar suas fadigas. Teto amplo, que aberta as cortinas, e situado num local de privilegiada beleza deleitam-se ao refrigério da brisa e a contemplação dos horizontes.”

Estas palavras referem-se ao fato de a instituição não possuir um teto para suas reuniões, pois, reuniam-se de favor numa acanhada sala da redação da Revista Brasileira na antiga rua do ouvidor.

Coelho Neto, outro orador daquela histórica sessão o seu depoimento é mais contundente:

“…tínhamos duas salas acanhadíssimas: redação em uma, secretaria em outra. Dos sócios da casa o menos assíduo era o sol, representado quase sempre pela luz de gás. Desde a escada tinha-se a impressão de que em tal cacifo, mal os galos começavam a cantar matinas, a noite recolhia sua sombra, pelo menos a parte com que escurecia o quarteirão, logo que o sino grande de São Francisco, lentamente em sons graves, dobrava as Ave-Marias. Só me atrevia a afrontar-me com a treva da escada carunchosa e rangente, na qual mais de uma vez encontrei ratazanas pré-históricas quando recebia chamado para rever as provas.”

Companheiros e companheiras:

Quando empecilhos interpõem-se á publicação de boas obras, ou apoio financeiro às Academias de Ciências, Letras e Artes. Quando tal acontece, em pleno alvorecer da era de Aquários, é de se perguntar: — Desapareceram os entusiastas, que imitando o romano Mecenas, dispensava seus bens para amparar valores culturais?

Tal fenômeno seria a decadência cultural motivada pela avalanche de termos procedentes de outras culturas, que invariavelmente pouco ou nada acrescentam ao nosso idioma? De outra forma, seria a globalização encurtando distâncias? Estilos diferentes? Invasão de gírias?

Sejam estas ou quaisquer outras as razões; é um descaso que empana sutilmente o fulgor inigualável presente no mais belo dos idiomas imortalizado por Bilac, na “Ultima flor do Lácio. “—Certamente, o desapreço a causa maior dos entraves á dificuldade do surgimento de instituições culturais.

Estejamos todos conscientes: Quando nasceu a Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete, obstáculos múltiplos se fizeram presentes. Outros tantos vêm paulatinamente surgindo em meio à caminhada.

Tal fenômeno por assim dizer não é novidade. Nos escritos sagrados O Evangelista São João escreve “No mundo tereis aflições. “Embora ali o texto sagrado se refira à valores espirituais; subjetivamente, resguardando um melhor juízo, entendo ser pertinente tal conceito relativamente aos valores materiais. Hoje somos nós, a quem sobre os ombros é confiada a incumbência de mantê-la no cumprimento da missão.

A presença de nossa Academia seja apadrinhando instituições, publicando boas obras, ou interagindo com outros povos através de concursos literários, a razão do reconhecimento de utilidade pública; bem como, agora com a instalação nesta casa, acreditando que será esta a nossa casa.

Para trás ficam as reminiscências visto que a saudade é sempre presença marcante. Ainda que venham em profusão tempos de refrigério e de alegria, o tempo que se foi jamais será esquecido; especialmente a companhia agradabilíssima de nossos pares que nos precedem na eternidade. Todos, sem distinção terão definitivamente um lugar especial em nossos corações.

Não temos porque temer afirmar que nossa verve, aliada ao refrigério da brisa, a contribuição de cada um de nós na luta pertinaz, especialmente contra o modismo de uma linguagem chula nascida na forma de gíria e outras mil advindas de expressões importadas, que pouco ou nada acrescentam no contexto da oração. Sigamos o exemplo caminhando à sombra dos nossos pares que já se encontram na imortalidade. A dedicação daqueles é para nós incentivo, cerremos fileira empunhando a mesma bandeira.

A casa, que hoje nos acolhe, abertas suas portas e janelas para a nascente ou para o poente, da colina onde se encontra, obviamente sendo verdadeira a afirmação de alguém, cujo nome subtraiu-me a memória; aquele afirma: que olhando-se do alto obtém-se melhor visão, e que a observação e a experiência são verdadeiras mestras da vida.

Atestando suas palavras, ouso afirmar que a boa literatura ainda que não seja o suficiente, é canal de luz no enfrentamento a males primitivos. Nossas obras, se iluminadas pela razão e à luz da moral, certamente nortearão as futuras gerações; e no tempo presente evidente testemunha de que esta nossa casa, entre tantas, a mais iluminada.

Obrigado.

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